sexta-feira, 13 de junho de 2014

O Pentecostes, o Brasil e a Copa

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Foto: Reuters

Pentecostes é uma das festas regulares dos israelitas, comemorada há milhares de anos. Para participar dessa festa, celebrada 50 dias após a Páscoa, gente de todas as partes viajava para Jerusalém. Com o passar dos séculos ela tornou-se internacional, atraindo devotos de muitos povos e regiões diferentes. Foi numa dessas ocasiões, exatamente durante a celebração da Festa de Pentecostes, que ocorreu uma manifestação divina especial, em cumprimento à promessa de derramar o Espírito, como água viva sobre a terra seca, tendo em vista abençoar muitas raças e nações diferentes. Naquela oportunidade o Evangelho foi espalhado para muitos povos! Assim, também a igreja de Cristo celebra o Pentecostes, o que acabamos de fazer neste último domingo, às portas da abertura da Copa do Mundo de Futebol.
Em nossos dias, a Copa do Mundo também tem o poder de reunir diferentes nações, concentrando multidões, em geral num país, para uma celebração que tem a intenção de estimular a paz e o convívio respeitoso entre pessoas e povos.

O mundo ama futebol; e os brasileiros, então, o têm em alta consideração. Futebol faz o nosso país vibrar e é uma espécie de metalinguagem nacional, onde estão representados sentimentos, expectativas, angústias, dramas e lutas da nação. O brasileiro raramente é indiferente ao futebol e menos ainda diante da realização da Copa do Mundo em nosso território. As emoções sobem e se transfiguram em paixão. Mas, desta vez, estamos mais cientes de que a realidade do nosso país vai muito além da emoção dos jogos, das alegrias das vitórias ou tristezas por eventuais derrotas. Hoje a consciência está mais amadurecida e temos compreensão de que a construção de uma sociedade justa e igualitária extrapola os campos e as partidas de um campeonato mundial de futebol. A magia do futebol não enfeitiça a nação diante dos desafios que temos!

Torcemos para a seleção balançar as redes, reconhecendo que alguns não o façam, mas torcemos mais ainda pelo Brasil. Esperamos que o Brasil seja campeão em campo e também fora do campo. Sabemos que o Brasil tem suas virtudes e problemas, como qualquer nação, e estamos desenvolvendo uma avaliação cada vez mais nítida da situação nacional. Mas não nos envergonhamos do nosso país, nem do nosso povo, apesar das questões ainda não resolvidas e da conturbada preparação deste Mundial. Não precisamos nos sentir inferiores por causa dos problemas que ainda temos para equacionar e afirmamos a nossa identidade fugindo da arrogância. O que esperamos é que o Brasil vá muito além da organização de uma Copa do Mundo e invista, cada vez mais, para melhorar a educação, a saúde e a segurança da população. Quando houver mais justiça social, menos corrupção, uma classe política mais qualificada e melhor distribuição de renda, então iremos cantar o Hino Nacional juntos com mais força ainda!

Somos um povo acolhedor e nos alegramos em receber os visitantes de outros países. Os estrangeiros são bem vindos ao nosso país e esperamos que experimentem algo da boa alegria brasiliana e que conheçam as belezas naturais e os magníficos sabores do Brasil, mas sem envolver-se de modo nenhum na exploração sexual de crianças e adolescentes. O Brasil não é destino de turismo sexual! Não aceitamos que esta festa, que nos está custando tão caro, seja usada para fins escusos como o turismo sexual e a exploração de menores, nem que este momento festivo seja usado para fins que dificultem a vida da população e venham a destruir o patrimônio nacional. Queremos que esta festa seja marcada pelo bom convívio e respeito para com todos, sejam estrangeiros ou brasileiros.

Amamos o Brasil como nação, igualmente reconhecida e constituída sob a benção dos céus, entre centenas de outras nações. Milhares de brasileiros são voluntários para cooperar com a organização do evento e outros milhares ajudarão espontaneamente aos estrangeiros e turistas. Mais do que oferecer uma festa e compartilhar a alegria momentânea da Copa do Mundo, porém, desejamos repartir os valores que identificam a nossa nação. Oramos que o Evangelho alcance e abençoe os milhares de visitantes que vierem ao nosso país e que estes levem de volta na bagagem ótimas lembranças do Brasil, mas, especialmente, a Paz permanente nos seus corações, para espalhá-la entre os seus povos, assim como ocorreu no Pentecostes dois mil anos atrás. Esperamos que a ocasião da Copa do Mundo sirva como plataforma de encontro e congraçamento dos povos da Terra, mas também para o Brasil dar um passo e crescer como nação.

Oramos, pois, pela nossa nação, pelo seu povo e seus governantes, neste momento tão especial para todos nós. Oramos pelas nossas crianças e pelos desfavorecidos, para que sejam protegidos e experimentem segurança durante este período. E oramos que as diferentes iniciativas de tantas de nossas igrejas para estes dias tenham a marca do Evangelho e levem muitos a celebrar a vida nova em Jesus Cristo.
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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Cartilha Cidadã

É com grande alegria que escrevemos para compartilhar com vocês em primeira mão o Flipbook de nossa Cartilha Cidadã, "Os Evangélicos e a Transformação Social: Cultura Cidadã e Democracia Participativa." 

É uma iniciativa da Aliança Evangélica com apoio de vários parceiros, nesse ano de eleições, com o objetivo de estimular nossas igrejas a tratar do tema da cidadania e colocando as eleições nesse contexto mais amplo de nossa participação e contribuição com a sociedade, na manifestação do amor de Deus dos valores do seu Reino.


Abraços fraternos, em Cristo.​

Wilson Costa​
​Diretor Executivo ​

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A Missão Integral nem é tão integral assim! Uma palavra pessoal

Nestes últimos dias, em nosso mundo evangélico, estabeleceu-se uma conversa em torno da Missão Integral (MI). Essa conversa, nem sempre muito fácil, é importante na medida em que nos leve mais para perto de uma obediência evangélica saudável. Ao prestar atenção a ela, minha memória se aguçou e trouxe de volta momentos e movimentos da minha própria história.

A primeira vez que eu embarquei num ônibus, em Porto Alegre, rumo à Argentina, foi em 1972. Lá, reclusos numa pequena cidade chamada Villa Maria, eu passei um mês aos pés de pessoas como René Padilla e Samuel Escobar. Aquele mês tornou-se inesquecível para mim por ter sido altamente formador na minha vida. Depois de Villa Maria foram muitas as vezes em que pude participar em discussões teológicas e vivências comunitárias que ajudaram a forjar a minha caminhada no seguimento a Jesus. Quem sabe, a questão mais importante que eu poderia dizer é que René, Samuel e seus companheiros eram simples, acessíveis e tinham um coração pastoral; e, ao mesmo tempo, eram estudiosos e me impressionavam com o seu conhecimento, a bibliografia que manejavam e sua grande cultura teológica. Eram homens de família e se preocupavam em mentoriar jovens como eu, com as minhas perguntas e os meus devaneios. Eles queriam simplesmente ser seguidores de Jesus e neste afã percorriam o continente latino-americano, em seguidos encontros de evangelização e formação de discípulos.

Embora este não seja o espaço onde convém entrar em detalhes dessas minhas andanças, eu queria, à guisa de contribuição para esta nossa conversa, pontuar quatro coisas.

O termo “Missão Integral” não pode ser, nem absolutizado, nem ideologizado!

Se é certo que o termo MI tem um forte cunho latino-americano, histórias como a de INFEMIT (International Fellowship of Mission Theologians) evidenciam que havia em outros continentes uma preocupação e uma agenda similar e que se buscavam oportunidades e fóruns de encontro onde se pudesse compartilhar e agenciar uma agenda que refletisse a grande amplitude da missão da igreja. Não há cercas geográficas em torno à compreensão da MI.

Também se pode afirmar que a voz latino-americana foi chave para que uma compreensão de missão que fosse integral viesse a marcar presença no Pacto de Lausanne. Mas o compromisso com esta compreensão de missão não foi uma descoberta que se deu neste continente, pois outras expressões similares povoam as diferentes histórias missionárias. E, em tempos recentes, a MI ganhou muito mais presença no próprio Movimento de Lausanne, ao ponto de ser abraçada como “integral mission” pelo Compromisso da Cidade do Cabo, de cuja redação eu mesmo tive a oportunidade de participar. Outros esforços globais como o Micah Challenge (Desafio Miquéias) e a Micah Network (Rede Miquéias) expressam muito bem que há uma caminhada global na vertente desta compreensão e missão.

Esse desenvolvimento, no entanto, não pode nos levar a absolutizar uma determinada forma de falar da missão. MI é só um jeito de falar. É um jeito de querer gestar uma obediência ao evangelho que seja o mais consistente e ampla possível. A MI, de fato, nem é tão integral assim. Aliás, nada do que fazemos é “tão integral assim” e todos só sabemos e só falamos em parte, como o próprio apóstolo Paulo nos ensina. E tem mais: creio que a MI deve ser avaliada criticamente, e cada nova geração e cada novo contexto deve fazê-lo. Ainda que “formado na escola da MI”, eu tenho procurado avaliá-la criticamente e percebido áreas nas quais ela precisa refletir. Entre estas eu ressaltaria: a busca por expressões de uma espiritualidade que leve mais em conta o coração e não só a mente; que se busque um jeito de fazer teologia que seja menos cerebral e mais poético; que a predominância do homem branco seja completada por outras raças e etnias e pelo importante feminino, que se deixe de ser um fenômeno fortemente de classe média, como o são muitas de nossas igrejas históricas, e encontro o caminho da popularização e da carismatização, que a ênfase socioeconômica e até política da realidade seja ampliada, por exemplo, por um discernimento cultural e sócio cultural da realidade na qual vivemos– para citar umas poucas áreas a serem trabalhadas. Mas confesso que, em oração, sempre volto a balbuciar o anseio de que a minha compreensão e vivência da missão seja o mais integral possível . . .  para a glória de Deus.

O encontro com a Palavra foi fascinante!
Os meus primeiros encontros com a MI se deram enquanto estudava teologia numa instituição de corte liberal. Oriundo de um contexto pietista, confesso que estava bastante perdido no universo daquela formação e o encontro com essa outra escola me deslumbrou. O que eu via nos encontros onde a MI estava sendo gestada era uma profunda submissão à Palavra de Deus, associada à descoberta de que esta era profundamente relevante para os nossos conturbados dias e podia ser estudada com sérios critérios históricos, geográficos e semânticos. Neste universo eu encontrava uma hermenêutica que entendia a autoridade da Palavra, estudava-a com seriedade e a aplicava ao contexto em que vivíamos.

Até hoje sou fascinado pela Palavra de Deus, e foi nos caminhos da MI que este encanto foi se aprofundando. Aliás, a ênfase na Palavra de Deus foi pioneira nesta caminhada. A Fraternidade Teológica Latino-Americana, que foi o lugar maior onde a teologia da MI foi gestada, começou a ser gestado no primeiro Congresso Latino-Americano de Evangelização (CLADE I), realizado em Bogotá, Colômbia, em 1969. E o seu primeiro encontro formal, pós CLADE I, tematizou a Palavra de Deus, deixando evidente o lugar central desta em qualquer teologia e em qualquer caminhada cristã. Assim, a MI nasceu no berço das Escrituras.

A descoberta da centralidade do Reino de Deus
Procurando sobreviver em meio aos meandros de uma teologia liberal, que era muito boa na desconstrução de sistemas e credos, foi a descoberta do Reino de Deus como a chave hermenêutica para a construção da minha fé e vivência da missão que me ensinou a nadar rumo à sobrevivência na fé no Deus trino. O evangelho se abriu e ganhou cores que eu não imaginava. O evangelho falava de mim e do outro, especialmente do pequeno e do pobre. O evangelho falava do corpo, da alma e do espírito. Ele falava da pessoa e dos sistemas e estruturas onde elas vivem. Falava do passado e do presente e apontava para o futuro de Deus. O evangelho mostrava um Jesus que anunciava e vivia o Reino de Deus,  e me convidada a segui-lo nas sendas da esperança desse Reino.  

Logo depois da Consulta sobre a Palavra de Deus, na qual a FTL foi formalmente criada, procurou-se mergulhar na ênfase no Reino de Deus, como demonstrado e apontado pelos evangelhos. Este Reino de Deus é que dava os contornos para a gestação de uma missiologia que fosse fiel aos evangelhos, que se soubesse a serviço do Deus trino e fosse em busca do outro, quem quer que ele fosse e onde quer que estivesse. Por isso é que CLADE III trouxe o slogan de Lausanne para as nossas paragens latinas: “Todo o Evangelho, para todos os povos, desde a América Latina”.

Descobrindo a realidade ao nosso redor
Vindo de um transfundo pietista, que tende a olhar mais para a realidade espiritual do que para a realidade social do outro, e vivendo num contexto de ditadura militar, onde a preocupação sociopolítica tendia a ser cunhada de subversiva, foi significativo para mim descobrir a dimensão mais ampla do evangelho, tanto na dimensão cultural como social e econômica da realidade. Eu costumo dizer que foi o evangelho que me abriu os olhos para a realidade e especialmente para o pobre, o excluído e o vulnerável.

Às vezes surge a pergunta (e muitas vezes, a afirmação) sobre a influência do marxismo na teologia da MI. Aqui, parece-me que precisamos discernir dois diferentes momentos. Num primeiro momento, a questão central era perceber e discernir a realidade que a iniciativa missionária norte-americana estava, em sua maioria, trazendo para o nosso continente.

É importante registrar que essa iniciativa missionária estava focando fortemente a América Latina devido, especialmente, ao fechamento da China para o envio de missionários estrangeiros, bem como  o número cada vez maior de missionários provenientes de crescentes igrejas evangélicas, várias delas de corte fundamentalista,  nos EUA. Esta vertente evangélica, naquele país, havia reagido fortemente ao liberalismo teológico vindo da Europa e se posicionado radicalmente contra o chamado “evangelho social”. Logo, ao desenvolverem os seus ministérios em nosso continente, a ênfase numa evangelização e discipulado voltados para o indivíduo e para as coisas espirituais era muito forte, quando não exclusiva. Acresça-se a isso a postura que os EUA haviam tomado em relação à grande maioria de ditaduras no continente, fato que contaminava a obra missionária. É diante desta ênfase que vozes latinas se levantam e chamam atenção para um evangelho que se preocupa com todas as dimensões da vida humana, para a necessidade de se levar em conta a realidade do nosso continente, fortemente marcado pela pobreza, opressão e injustiça social. Assim, na nascente da MI está o clamor para que se perceba a realidade e a engajar-se nela e também a descoberta de que o evangelho não está alheio a essa realidade e a proclamação do Reino de Deus visa a sua transformação.

Num segundo momento, essa mesma caminhada evangélica em torno ao conceito da MI percebeu que emergia fortemente no continente aquilo que se chamou de Teologia da Libertação. Essa teologia ajudou a desvendar a realidade deste continente, perguntou pelo lugar da igreja nele e se propôs fazer uma releitura do evangelho desde a perspectiva daquele que havia sido historicamente excluído nas andanças continentais. Para analisar essa realidade, muitos teólogos da libertação fizeram uso do instrumental marxista, enquanto outros fizeram uso também da proposta revolucionária articulada a partir do marxismo. Os detentores da teologia da MI discerniram a importância de entrar em diálogo crítico com a teologia da libertação, sem deixar de afirmar os princípios básicos de uma fé evangélica. É preciso dizer que nestas fileiras da MI havia desde evangélicos que se identificavam com uma expressão mais “conservadora” da fé, quanto outros que o faziam desde uma perspectiva mais “progressista”. Também se pode dizer que o instrumental marxista de análise da realidade foi usado e importante para vários, mas não tenho registro de nenhuma conversão para um marxismo ideológico. Em verdade, acho a discussão em torno da influência marxista na teologia da MI muito fora de foco. O foco de fato era o evangelho do Reino de Deus e sua vivência na realidade circundante. Nada mais e nada menos do que isso. Aliás, isso devia ser feito, em épocas passadas e com muita dificuldade, em contextos de muitos governos autoritários e militares. Hoje o contexto mudou mas a MI ainda quer o mesmo: todo o evangelho para todos os povos, a partir do lugar onde nos sabemos chamados por Deus.

A vivencia da MI nem é tão integral assim. Aliás, nada do que propormos ou fizermos vai ser bem integral, sendo sempre limitado e até unilateral, o que é marca da nossa humanidade caída. A vivencia da MI se torna um pouco mais integral quando vivida em comunidade, e creio que essa marca ela tem. A MI é uma proposta que se gerou em comunidade e se vive em comunidade. Ela é também um pouco mais integral, quando novas gerações a avaliam criticamente, complementam e contextualizam novamente, e nesta área a MI tem encontrado as suas dificuldades, ainda que vemos uma verdadeira multidão de jovens querendo abraçar e viver a isto que se tem chamado de MI

A MI é, em última análise, um esforço, desejo e intento missionário e comunitário de escutar, receber e viver o evangelho de Jesus Cristo de forma intensa, comunitária e contextual. Aliás, o conceito MI deve estar a serviço disso. Caso contrário, mudemos de linguagem – mas sempre querendo nos encontrar no encanto pelo evangelho e no serviço do Reino de Deus no mundo no qual vivemos.

Valdir Steuernagel
Pastor – Curitiba/PR